Itália. Saio de Saint Tropez  direito a Cannes cedo pela manhã, com a despreocupação natural das férias, de não ter horas nem ninguém à minha espera. Não estava preparado para a viagem difícil que me esperava... 
Decido cortar caminho direito a Itália, sem passar pelo Mónaco. Um pequeno atalho e... quem se mete em atalhos mete-se em trabalhos. Nunca este provérbio se me mostrou tão verdadeiro! Atravesso os Alpes! A primeira hora de travessia das montanhas foi fantástica e nem o número excessivo de curvas em cotovelo me desmoralizou, até que, sem se fazer anunciar, o céu cobre-se de um manto preto carregado e liberta toda a sua ira. Nunca até à data tinha sentido medo de trovoada e sempre gostei de ver o céu a abrir-se em dois e a parir, num rugido violento, um rasgão de luz ofuscante. Mas desta vez fui forçado a ser mais que mero espectador e vi-me confrontado com a minha fragilidade em cima de uma mota: curvas que de repente se escondiam no nevoeiro, pedras de chuva que me trespassavam o fato de goretex, o trovão que sacudia a estrada, o corpo cansado e molhado e revolvido pelos bramidos do céu e a orientação que finalmente me abandonou e me deixou à deriva. Podia estar no meio do oceano e traçar os meus limites entre o céu e a água, sem mais nada à vista. Quantas voltas dei, quantas vezes fiz as mesmas curvas, as mesmas subidas íngremes e as descidas acentuadas que talvez até tivesse acabado de subir?
Ao cabo de 4h nesta desventura, um pequeno café, a primeira e única casa que tinha visto neste espaço de tempo arrastado. Parei uma hora para descansar, alimentar-me e esperar que a chuva amainasse e que o céu se cansasse de praguejar. Ao cabo de uma hora, da mesma forma repentina com que começara, acabou, deixando visíveis sinais da sua passagem. No café explicaram-me o caminho para Itália, que já não estava longe, e assim caí na ratoeira e me fiz ao caminho. Passados 30mn o céu voltou a lamentar-se com a mesma fúria. Foi já debaixo de violentos jorros de água e nevoeiro cerrado que vi aparecer a placa que indicava a entrada em Itália. 
Ainda não corridos 100 metros, um armazém (casa?) em ruínas coroa um túnel de 300 metros de escuridão. Dois dedos de água correm túnel adentro. Atravesso o corredor negro bem devagar, com medo que alguma poça mais funda me apanhe a roda da mota. À saída deste “oblivion” esperava-me a “Casa do Terror” da nossa antiga (e única) feira popular. Uma galeria com 1,5km de comprido aperta casas abandonadas umas contra as outras, madeiras pregadas em cruz tapam portas e janelas partidas e buracos nos telhados devem servir de entrada para os novos habitantes. Ao fundo, duas luzes acesas, um café com três carros estacionados. Não parei para ver que sombras se tinham esquecido de partir e acelerei direito à auto-estrada para Génova, que entretanto havia programado no meu Garmin. Só após percorrer 140 km debaixo de chuva, ventos laterais fortes e trânsito intenso de camiões é que decido abandonar a auto-estrada e procurar um hotel para dormir. Nas portagens indicam-me uma pequena vila a 6km, onde há um hotel. E de facto, à entrada da vila encontro uma placa enviesada colada num prédio velho de 5 andares, o único hotel existente, como verifiquei antes de lá procurar guarida. Um velhote de pelo menos 150 anos, mouco como as portas, leva-me ao quarto que alugo sem querer ver. O meu abrigo fica no 4º andar e o caminho faz-se por umas escadas íngremes apertadas entre a parede e um corrimão bamboleante com baldes, vassouras, esfregonas e alguma roupa suja a servirem de obstáculos. O quarto: uma cama de casal com um colchão que quase fecha sobre o meu peso quando me deito, uma televisão sem ficha e 4 paredes que apertam uma sanita com um chuveiro por cima e um pequeno lavatório. Lavo o pesadelo do dia com uma perna para cada lado da sanita sob um pequeno fio de água bem quente (valha-me ao menos isso!) Deito-me a pensar no próximo destino: Ravenna e San Marino.

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Verona. Verona é uma cidade linda, talvez a minha cidade Italiana preferida, inundada de promessas de amor trancadas a sete chaves em louvor do amor de Romeu e Julieta, ficcionado por Shakespeare. Um romance, como a máquina comercial nos faz crer, baseado no amor trágico entre dois vizinhos nobres. O palco que serve de cenário a este amor é um pequeno pátio que separa as duas casas e que serve hoje, para além de casa-museu, de cofre para promessas de amor gatafunhadas nas paredes, nos portões, caixotes de lixo, puxadores das portas, etc. Pregados às antigas argolas que se usavam antigamente para prender os animais por um curto espaço de tempo, enferrujam agora colares de cadeados com nomes escritos: nome + nome, numa combinação de nomes e personagens infinita.
O pátio abriga também a mama mais famosa do mundo. A mama direita da Julieta é polida dez mil vezes ao dia por um mar de visitantes apaixonados, brincalhões ou supersticiosos – criou-se a ideia que aquela mama, bem massajada, traz sorte ao amor – e para não testar a Sorte, mais vale encostar lá a mão. Depois segue-se um rugido de flashes ofuscantes e todos levam para casa a sua recordação do apalpão que deram na maminha da Julieta.
Não tenham dúvidas, caros leitores, de que a maminha que fez furor e, bem visto, a maminha mais famosa do mundo, tem os dias contados: não há material nenhum, por mais resistente que seja, que resista a tanto polimento.
A cidade é património mundial pela beleza da arquitectura medieval: a Arena (aquartelamento militar romano), a ponte Di Pietra, o arco de Gavi, a porta Borsari, a basílica de San Zeno Maggiori (santo patrono da cidade), a pequena basílica romanesca de San Lorenzo, a igreja românica de Santa Maria Antica famosa pelos túmulos Scaliger de estilo gótico, os numerosos edifícios românicos e o museu de História Natural que contem das maiores colecções de fósseis e salvados arqueológicos europeus. Mas Verona guarda espaço para todos e mais gostos: pequenas praças cheias de esplanadas, restaurantes, bares e geladarias, sem esquecer as ruas cheias de comercio para a moda dos seduzidos, coroam também as ruas.
A luz aos poucos vai abandonando a cidade. Sento-me para jantar e planear o dia seguinte.
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Veneza. Acordo de manhã cedo, 30 minutos antes do despertador marcado para as 07h30. Saio à procura da Veneza que me apaixonou há 19 anos, da travessia dos canais em táxis gôndola com um violinista a presentear-nos com uma tocata, dos casais dos filmes a passear de mãos dadas e do café com piano no final da tarde na Piazza San Marcos num festival en passant de caras sorridentes. Era esta a recordação que levava de Veneza e foi neste espírito que a visitei e a esperava encontrar. Mas o viajante que me tornei quer ver mais fundo e deixar o verdadeiro cheiro das ruas entranhar-se na pele. Veneza ganhou outros encantos, mais crus, com mais vida e menos romance. Foi como ler o mesmo livro pela segunda vez e ganhar uma nova leitura. 

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